A iniciativa reúne as advogadas Priscila Dias (@prisciladiasadv), Beatriz Barros (@adv.beatrizmbarros), Rafaela Filter (@rafaelafilter), Jamily Wenceslau (@jamilywenceslau) e Fernanda Regina Tripode (@fernandatripode), que abordam diferentes aspectos do tema. Enquanto algumas concentram suas análises na saúde mental masculina, outras direcionam o foco para a violência doméstica contra homens, os conflitos familiares, as políticas públicas e o tratamento jurídico conferido às vítimas do sexo masculino. Apesar da diversidade de enfoques, todas partem de uma mesma premissa: reconhecer o sofrimento masculino não significa diminuir a importância das políticas de proteção às mulheres, mas ampliar a efetividade da proteção destinada a todas as vítimas.
Um debate que vai além da data
Criado na década de 1990, o Dia do Homem surgiu com o objetivo de incentivar cuidados preventivos e promover discussões sobre a saúde da população masculina. Para o grupo de advogadas, entretanto, a data também representa uma oportunidade para abordar questões que, na avaliação delas, permanecem pouco reconhecidas tanto no debate público quanto na formulação de políticas institucionais.
Ao longo do vídeo, cada participante desenvolve um aspecto específico dessa discussão. Enquanto algumas concentram suas análises na saúde mental masculina, outras direcionam o foco para a violência doméstica, os conflitos familiares e o tratamento jurídico conferido aos homens que afirmam ter sido vítimas de violência.
Violência doméstica e a sensação de invisibilidade
Abrindo a série de reflexões, a advogada Rafaela Filter afirma que homens também podem ser vítimas de violência praticada por companheiras ou ex-companheiras. Segundo ela, além das agressões físicas, psicológicas, morais e patrimoniais, muitos enfrentam dificuldades para obter acolhimento institucional e resposta efetiva do sistema de Justiça.
Na avaliação da advogada, essa realidade produz um efeito adicional sobre quem procura ajuda.
“O homem que procura ajuda e encontra a porta fechada é vítima duas vezes.”
Como exemplo, Rafaela relembra uma decisão proferida em 2008 pelo juiz Mário Roberto Kono de Oliveira, então integrante do Juizado Especial Criminal Unificado de Cuiabá. Na ocasião, o magistrado concedeu medida protetiva em favor de um homem com fundamento na Lei Maria da Penha, reconhecendo, diante das circunstâncias específicas do caso, que a violência doméstica também pode atingir vítimas do sexo masculino.
Para a advogada, episódios como esse demonstram que a discussão sobre violência doméstica não se limita a um único perfil de vítima e pode exigir respostas jurídicas adaptadas às particularidades de cada situação concreta.
Saúde mental e o peso do silêncio
A segunda etapa da reportagem desloca o debate para a saúde mental masculina.
A advogada Beatriz Barros destaca dados que considera especialmente preocupantes. Segundo ela, homens morrem por autoextermínio entre duas e quatro vezes mais que mulheres na maior parte dos países.
Com base em informações da Organização Mundial da Saúde (OMS), ela afirma que a taxa mundial é de 12,3 mortes por 100 mil homens, enquanto entre mulheres esse índice é de 5,6 por 100 mil. No Brasil, acrescenta, os homens representam aproximadamente 75% a 80% dos casos registrados, muitos deles associados a separações, rompimento de vínculos familiares e conflitos pessoais.
Para Beatriz, esse cenário guarda relação com fatores culturais que dificultam a busca por ajuda emocional.
“Não é falta de sentimento. É excesso de silêncio. O homem silencia a própria dor. A mulher não.”
Segundo ela, reconhecer essa realidade é importante para estimular homens a procurarem atendimento especializado antes que situações de sofrimento emocional evoluam para quadros mais graves.
Ao final de sua participação, a advogada lembra que o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito e sigiloso para apoio emocional e prevenção ao suicídio por meio do telefone 188, disponível durante 24 horas por dia.
Quando a vítima precisa provar que é vítima
A discussão segue para o funcionamento do sistema de Justiça.
A advogada Priscila Dias afirma que homens que relatam situações de violência frequentemente enfrentam uma reação social distinta daquela direcionada às mulheres vítimas.
Segundo ela, antes mesmo de receber acolhimento, muitos acabam sendo questionados sobre a própria conduta.
“Quando a vítima é um homem, a pergunta costuma ser: ‘O que ele fez para merecer?’ como se a vítima precisasse justificar a própria dor.”
Na avaliação da advogada, essa percepção também aparece em disputas familiares e patrimoniais, especialmente em situações envolvendo medidas protetivas e alegações de alienação parental. Para ela, essas circunstâncias evidenciam a necessidade de ampliar o debate sobre o tratamento conferido pelo sistema jurídico às diferentes formas de violência.
A ausência de políticas públicas voltadas aos homens
Ao abordar a estrutura de proteção existente no país, a advogada Jamily Wenceslau direciona sua análise para as políticas públicas destinadas às vítimas de violência.
Segundo ela, embora existam estruturas consolidadas de acolhimento para mulheres, homens que afirmam sofrer violência frequentemente encontram poucas alternativas de atendimento especializado, tanto na esfera administrativa quanto na rede de assistência social.
Na avaliação da advogada, essa diferença acaba dificultando o reconhecimento institucional dessas situações e limita a construção de políticas públicas voltadas ao tema.
Jamily observa que, mesmo após a ampliação promovida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em 2025, para alcançar casais homoafetivos masculinos, travestis e mulheres trans em determinadas hipóteses relacionadas à aplicação da Lei Maria da Penha, a legislação continua sem abranger o homem heterossexual como destinatário da proteção prevista na norma.
Ela também chama atenção para outros indicadores sociais que, segundo sua avaliação, demonstram a necessidade de ampliar esse debate. Entre eles, cita o fato de que homens representam a maioria das vítimas de homicídio no país e cerca de 85% das pessoas em situação de rua.
Para a advogada, o reconhecimento institucional dessas vulnerabilidades constitui etapa necessária para a formulação de respostas mais abrangentes.
“Onde não há reconhecimento, não há política pública. E sem política pública, não há proteção.”
A mensagem final do grupo
Encerrando a iniciativa, a advogada Fernanda Tripode retoma o argumento que une todas as manifestações apresentadas ao longo do vídeo.
Segundo ela, discussões relacionadas à realidade masculina costumam enfrentar maior resistência quando comparadas a outras pautas sociais, especialmente diante da percepção de que a inexistência de determinados dados estatísticos significaria, por si só, a inexistência do problema.
Na avaliação da advogada, porém, a ausência de estatísticas também pode refletir aquilo que a sociedade escolhe observar, registrar e discutir.
“A dignidade humana não tem hierarquia. A dor não tem gênero. A justiça não pode ser seletiva.”
Para Fernanda, ampliar esse debate não significa estabelecer competição entre diferentes grupos sociais nem reduzir a importância das políticas voltadas às mulheres. O objetivo, afirma, é reconhecer que a proteção da dignidade humana deve alcançar todas as pessoas em situação de vulnerabilidade.
Por que o debate importa
Embora tenha como marco o Dia do Homem, celebrado em 15 de julho, a iniciativa procura ampliar uma discussão que ultrapassa a data comemorativa.
Ao reunir reflexões sobre saúde mental, violência doméstica, conflitos familiares, políticas públicas e proteção jurídica, as advogadas defendem que esses temas também passem a integrar de forma mais consistente o debate público e institucional.
Ao longo da reportagem, o grupo sustenta que reconhecer situações de vulnerabilidade enfrentadas por homens não implica reduzir direitos já assegurados às mulheres. Na avaliação das participantes, trata-se de ampliar o alcance das políticas de proteção e fortalecer a aplicação do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana a todas as vítimas, independentemente do sexo.
A mensagem comum apresentada pelas cinco advogadas é que a promoção da igualdade exige reconhecer diferentes formas de sofrimento quando elas efetivamente existem e assegurar que todas possam ser enfrentadas pelos instrumentos disponíveis no sistema de Justiça e nas políticas públicas.
Se você ou alguém que conhece enfrenta sofrimento emocional ou pensamentos suicidas, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito, sigiloso e 24 horas por dia pelo telefone 188 e por meio de seu atendimento on-line.

Postar um comentário
Agradecemos pelo seu comentário!