Ela era servidora pública, mas perdeu emprego e carro por vício em bets: ‘Sequestra a sua mente’

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Ela era servidora pública, mas perdeu emprego e carro por vício em bets: ‘Sequestra a sua mente’

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Via @estadao | No início, foi só um passatempo. Um link recebido no celular, uma aposta de R$ 5, outra de R$ 10. A sensação era de que o jogo aparentemente simples, em que era preciso acompanhar a subida de um aviãozinho e sacar o dinheiro apostado antes que ele caísse, podia ser controlado.

Assim Maria (nome fictício), de 49 anos, entrou no mundo das apostas online e, em poucos meses, começou uma rotina de perdas, dívidas, isolamento e compulsão.

“Você começa com valores bem baixos. E não joga sempre. Quando aparece aquele momento de vazio, você vai lá e coloca de novo. O jogador acha realmente que tem controle. Mas chega uma hora em que a doença sequestra a sua mente”, relata.

Maria era servidora pública havia cerca de 20 anos. Tinha estabilidade, salário fixo, boa reputação na pequena cidade onde mora, no interior do Rio de Janeiro, e uma vida que ela define como “organizada” antes do jogo.

Hoje, acumula uma dívida superior a R$ 800 mil, perdeu o trabalho, vendeu o automóvel, se desfez de objetos pessoais e tenta recomeçar a vida vendendo cestas e dando aula particular. “Terminei 2024 sem carro, sem emprego, sem nada. O jogo só não tirou a minha vida”, afirma.

A compulsão cresceu junto com a facilidade de apostar. Tudo acontecia pelo celular, com depósitos via Pix. O jogador, segundo ela, passa a viver em função de ter dinheiro disponível na conta. Se recebe salário, aposta. Se pega dinheiro emprestado, aposta. Se tem dinheiro em espécie, corre ao banco para depositar.

Aos poucos, segundo ela, o cérebro deixa de reconhecer o peso real dos valores. “Com o tempo, você perde a noção. Você acha que R$ 600 e R$ 6 mil têm o mesmo peso. O importante não é ganhar mais. O seu sistema de recompensa pedia aquilo o tempo todo.”

Devota de São José, ela disse ao Estadão que um dos episódios mais marcantes aconteceu no dia dedicado ao santo, 19 de março (de 2024), quando chegou a ter R$ 100 mil acumulados em uma plataforma de apostas. O valor, em tese, poderia mudar sua vida. Mas a bet em que ela apostava só permitia sacar R$ 5.000 por dia. Para retirar tudo, precisaria esperar vários dias.

Ela não conseguiu. “Uma pessoa normal esperaria. Mas quem está no vício não consegue esperar. Em menos de quatro horas, aquele valor foi desaparecendo da plataforma. Eu fui jogando. Consegui sacar R$ 5 mil, perdi o restante e ainda coloquei mais dinheiro.”

Como é padrão na ludopatia, ao perder, ela jogava mais para tentar recuperar. E, se ganhasse, jogava com o que ganhou, e perdia. “Na verdade, o jogador não ganha. Ele devolve. Quem ganhou é quem comprou alguma coisa, adquiriu um bem. Eu não adquiri nada.”

Era uma vida de solidão. Mesmo cercada por família, colegas e conhecidos, ela apostava escondida. “Você não joga na frente de ninguém. Sempre joga escondido.”

Em viagens, festas, momentos de lazer e até em situações religiosas, o impulso continuava. Ela lembra que, em uma ida ao litoral, olhava para o mar, tentava aproveitar aquela paisagem que gostava, mas interrompia o momento para apostar. O dinheiro reservado para pagar despesas do hotel também foi embora.

Outro dia, dirigindo, subiu na calçada com o celular em uma mão e o volante na outra. “Eu subi na mesma calçada umas três vezes. Você sai de si.”

Maria conta que chegou a jogar durante a missa. Em dezembro de 2024, passou uma hora sozinha em oração, pedindo ajuda para conseguir dinheiro. Só mais tarde entendeu que não pedia ajuda para parar de jogar, mas para alimentar o ciclo. “Eu não pedi a Deus para me curar. Eu pedi dinheiro. Porque eu não sabia que era uma doença.”

Dor psíquica e pensamentos suicidas

O salário deixou de chegar em casa. O carro, um HB20 automático que representava liberdade, foi vendido. Objetos de valor, como peças de ouro, também foram desfeitos.

Em alguns dias, ela não conseguia sequer tomar banho. Chegava do trabalho, apagava as luzes do quarto, diminuía o volume da televisão para ninguém perceber e jogava. “Você não vê a hora passar. A diferença para outras dependências é que, enquanto tiver dinheiro, você continua. Nada te apaga.”

A dor psíquica ficou tão intensa que Maria passou a ter pensamentos suicidas. Em uma festa da cidade, depois de assistir a um show que gostava, pensou em tirar a própria vida. Em outro momento, durante um velório, olhou para o caixão e desejou estar no lugar da pessoa que havia morrido. “Não era sobre a vida. Era sobre a dor. Eu ainda não achei nenhuma palavra que seja sinônimo dessa dor.”

Diagnóstico de ludopatia, síndrome do pânico e depressão

A situação veio à tona no fim de dezembro de 2024. Sentindo-se no chão, desesperada e deprimida, Maria procurou familiares e superiores no trabalho e contou o que estava acontecendo. A partir dali, sua vida privada se tornou assunto público em uma cidade pequena.

Ela perdeu o emprego e responde a processos por dinheiro que ela pegou emprestado e não conseguiu pagar. Em sua defesa, alega que havia diagnóstico de ludopatia, síndrome do pânico e depressão.

No primeiro momento, Maria se escondeu. Dormiu uma noite fora de casa, sem saber se voltaria. Mandou mensagens pedindo perdão a colegas. A família, mesmo sem compreender totalmente o que havia acontecido, acolheu. “Foi difícil para mim entender. Imagina para eles. Mas teve acolhimento, principalmente da minha irmã. Eu praticamente me escondi dentro de uma casa para não me encontrarem.”

As irmãs retiraram o celular dela por cerca de três meses. O acesso ao dinheiro também passou a ser controlado. Quando recebia algum valor, transferia diretamente para a conta de uma irmã. A orientação de sua psicóloga, conta, é que ela tenha contato apenas com pequenas quantias.

Serviços de saúde e grupos de apoio também passaram a fazer parte da recuperação. Em janeiro de 2025, Maria entrou para um grupo de apoio. No início, diz, foi para entender o que havia acontecido. Depois, encontrou ali um espaço de escuta, rotina e reconstrução. “Muitas pessoas entram se sentindo culpadas, se sentindo um lixo. Eu também entrei assim.”

Um ano e cinco meses sem jogar

Hoje, Maria está há um ano e cinco meses sem apostar, mas evita falar em cura. Prefere dizer que está abstinente. Ela passou a estudar o transtorno do jogo, buscou atendimento especializado e começou a entender a dependência não como falha moral, mas como adoecimento.

A Organização Mundial da Saúde descreve o transtorno do jogo como uma condição marcada por perda de controle, prioridade crescente dada ao jogo e continuidade das apostas apesar das consequências negativas. A OMS também alerta que os danos podem envolver saúde mental, finanças, relações familiares, pobreza, estigma e risco aumentado de suicídio.

No caso de Maria, a percepção é de que o jogo condicionou o cérebro a buscar recompensa o tempo todo. “A dopamina vai lá nas alturas e o cérebro fica pedindo toda hora. A parte responsável pelo pensamento e pela tomada de decisão fica muito afetada. A pessoa que está jogando não tem mais domínio da própria vontade.”

Ela compara o vício ao sequestro da mente. “Primeiro sequestra, depois rouba. E rouba com violência. Tira tudo, humilha, tira a dignidade.”

A vida depois do jogo ainda é difícil. “Se eu tivesse um diagnóstico de câncer ou diabetes, eu seria acolhida socialmente. Como é jogo, eu sou julgada. A maior parte das pessoas acha que é desvio moral.”

Onde buscar ajuda?

Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar ajuda:

Centro de Valorização da Vida (CVV)

Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.

Canal Pode Falar

Iniciativa criada pelo Unicef para oferecer escuta para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. O contato com o Canal Pode Falar pode ser feito pelo WhatsApp, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.

SUS

Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o atendimento de pacientes com transtornos mentais. Há unidades específicas para crianças e adolescentes. Na cidade de São Paulo, são 33 Caps Infantojuventis e é possível buscar os endereços das unidades nesta página.

Mapa da Saúde Mental

O site Mapa da Saúde Mental mostra unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Disponibiliza ainda materiais de orientação sobre transtornos mentais.

Por Aline Reskalla
Fonte: @estadao

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