Ela foi frentista, doméstica e agente funerária, começou Direito aos 40 e se tornou advogada aos 46 no DF

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Via @correio24horas | Enquanto fazia compras em um supermercado de Brasília, Cosma Anastácia do Nascimento recebeu uma ligação pela qual estava esperando a meses. Uma professora tinha encontrado o nome dela no resultado da segunda fase do Exame da Ordem dos Advogados do Brasil.

O telefone logo começou a receber mensagens de amigos que também haviam consultado a lista. Aos 46 anos, Cosma tentou responder, mas o nervosismo a deixou sem voz. “Ainda está caindo a ficha”, contou.

Era 10 de setembro de 2019. O resultado daquele dia ainda era preliminar, e a confirmação definitivaseria publicada duas semanas depois, em 24 de setembro. A história voltou a circular em agosto de 2026, quase sete anos após a aprovação.

Do Piauí a Brasília

A ligação no supermercado chegou 22 anos depois da mudança que havia iniciado essa trajetória. Natural do Piauí, Cosma trabalhava como frentista quando decidiu partir para Brasília, em 1997. A filha, então com 10 meses, ficou no estado naquele primeiro momento.

Cosma pretendia encontrar trabalho e retomar os estudos na capital federal. Conseguir fazer as duas coisas, porém, levou mais tempo do que imaginava.

Os empregos surgiram um após o outro. Ela trabalhou como manicure, diarista, cozinheira, garçonete, empregada doméstica e agente funerária. Enquanto buscava formas de se manter, voltou à sala de aula e concluiu o ensino médio aos 29 anos, em 2002.

Já estabelecida no Distrito Federal, retornou ao Piauí para buscar a primogênita e teve outros quatro filhos. O desejo de cursar Direito permaneceu durante esse período, embora a faculdade ainda estivesse distante da rotina que conseguia sustentar.

Direito aos 40

Um dos empregos aproximou Cosma da carreira que pretendia seguir. Segundo ela contou à OAB do Distrito Federal, o trabalho como doméstica na casa de um casal de procuradores permitiu que acompanhasse de perto a rotina dos dois.

O convívio trouxe de volta o plano que havia sido adiado por anos. Aos 40, Cosma se matriculou no curso de Direito da Faculdade Fortium. Três semestres depois, conseguiu transferência para o Instituto Brasiliense de Direito Público, o IDP.

A graduação terminou em novembro de 2018, quando ela estava com 45 anos. O diploma concluía uma etapa, mas ainda faltava a aprovação necessária para receber a carteira profissional e atuar como advogada.

Estudo virou série

Cosma passou a estudar para o Exame de Ordem com o acompanhamento do advogado Mateus de Lima Costa Ribeiro. A preparação foi registrada na websérie “Quem quer ser um advogado?”, que mostrava a rotina dela até a realização da prova.

Nesse período, demonstrava maior interesse pelo Direito Penal. Os planos começavam pela advocacia, mas também incluíam concursos públicos e a possibilidade de seguir a magistratura.

Foi durante essa preparação que o nome de Cosma chegou à lista consultada pela professora. A mulher que havia retomado o ensino médio aos 29 e começado a faculdade aos 40 finalmente podia solicitar a carteira da Ordem.

A carteira profissional

Em 13 de dezembro de 2019, três meses após a ligação no supermercado, Cosma participou da cerimônia de entrega das carteiras da OAB-DF.

“Receber a carteira significa um divisor de água em minha vida”, afirmou à instituição.

Naquele dia, também agradeceu às pessoas que haviam acompanhado os anos de trabalho, faculdade e preparação para a prova.

Em dezembro de 2020, a OAB-DF incluiu Cosma entre 25 mulheres homenageadas por inspirar a advocacia.

Quando atendeu ao telefone naquele supermercado, ela ouviu em poucos minutos a notícia que havia levado anos para construir. Entre o diploma do ensino médio, recebido em 2002, e a carteira da OAB, entregue em 2019, Cosma criou cinco filhos, passou por diferentes profissões, concluiu a faculdade e manteve o plano de se tornar advogada até encontrar o próprio nome na lista.

Por Jean Candido e Agência Correio
Fonte: @correio24horas

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