Gentil é um dos investigados em uma das operações deflagradas pelo Grupo de Atuação Especial Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que apura esquema de ajuizamento em massa de ações na Justiça contra bancos para obter valores, principalmente de clientes vulneráveis, como aposentados e pensionistas.
Segundo o Gaeco, são duas ações independentes de grupos distintos.
Um vídeo ao qual o g1 teve acesso mostra o momento em que um policial do Baep subiu na cobertura de vidro da piscina do condomínio onde o advogado mora, no Jardim Irajá, para resgatar o notebook.
Obstrução da Justiça
Contra Guilherme havia um mandado de busca e apreensão, mas ele acabou preso em flagrante por obstrução da justiça, segundo o capitão Ulisses Branquinho Arsêncio.
"Nós fomos demandados para prestar apoio no cumprimento de quatro mandados de busca. Em um dos locais, a gente chegou à residência, um apartamento. No momento ali, a esposa do indivíduo tentou ludibriar as equipes que estavam lá, alegando que ele não estava, para, nesse momento, ele arremessar alguns componentes eletrônicos pela janela", diz.
Ainda segundo o capitão do Baep, as equipes que estavam no local perceberam a ação e os equipamentos foram recuperados.
"Foi percebido pelas equipes que estavam no local, entraram e localizaram aí um dos equipamentos em cima de uma laje, onde foi necessário um dos policiais do Baep subir para poder retirar esse equipamento e, por esse motivo, ele foi preso em flagrante por obstrução da justiça".
Advogado alvo de operação joga notebook pela janela antes de polícia apreender equipamento
O que diz a defesa dele
Além do imóvel em que mora o advogado, a polícia também esteve em um endereço onde ele faz atendimentos. Guilherme deve passar por audiência de custódia na quarta-feira (21).
À EPTV, afiliada da TV Globo, o advogado Júlio Mossin, que representa Guilherme, disse que o cliente cumpria o exercício da advocacia e não cometeu fraudes.
"Ele está sendo investigado, em tese, por ter arremessado. Ele não assumiu o arremesso, e eu tenho que lembrar algo aqui também. Ninguém está obrigado a produzir prova contra si mesmo. Se for o caso de ele ter arremessado, é um direito constitucional dele de não produzir prova. Não estou dizendo que é o caso. Ele está sendo investigado, em tese".
Gaeco deflagrou duas operações
Ao todo, foram cumpridos 11 mandados de busca e apreensão em duas operações desencadeadas em Franca (SP), Ribeirão Preto e Altinópolis (SP). Ainda segundo o Gaeco, a Justiça determinou o bloqueio de bens e valores dos investigados em R$ 6.149.840,00, somados os limites fixados nas duas operações.
Os grupos investigados são distintos e o Gaeco informou que ainda não há conclusão sobre ligação entre eles.
As investigações para o desencadeamento das duas operações apontam indícios de uma estrutura organizada que teria atuado em duas frentes simultâneas:
- Captando, principalmente, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade para ajuizar ações em massa contra bancos
- Utilizando mecanismos processuais para concentrar o controle dos créditos judiciais obtidos nessas ações
Segundo o Ministério Público, o núcleo teria atuado principalmente a partir de Altinópolis e Ribeirão Preto, com ramificações em Campo Grande e Iguatemi (MS), mas já foram mapeados processos abertos pelos advogados em outras regiões do Brasil.
Operação Libelo
Ainda segundo o Ministério Público, na operação Libelo, a Justiça autorizou seis mandados de busca e apreensão, sendo quatro em Ribeirão Preto e dois em Altinópolis, e determinou o bloqueio de bens e valores dos investigados até o limite de R$ 3 milhões.
A investigação após a identificação de um volume incomum de ações semelhantes patrocinadas por um mesmo advogado em Altinópolis.
De acordo com o Gaeco, são mais de dois mil processos só em Altinópolis, que tratam, principalmente, de empréstimos consignados, tarifas bancárias e inclusão indevida em cadastros de inadimplentes.
Libelo é a petição que dá início a uma ação e, ainda de acordo com o Gaeco, o nome da operação faz referência ao uso do processo como instrumento do esquema.
Celular e notebook foram recuperados pelo Baep de Ribeirão Preto, SP, após prisão de advogado por suspeita de obstrução da justiça — Foto: Divulgação
Operação Garatéia
A operação Garatéia é realizada em conjunto com a Polícia Militar e cumpre cinco mandados de busca e apreensão em Franca. Nesta ação, a Justiça determinou o bloqueio de bens e valores dos investigados até o limite de R$ 3.149.840,00.
Segundo o Gaeco, a investigação começou em 2024, após indícios de que escritórios de advocacia da região teriam usado procurações antigas ou genéricas para propor milhares de ações em nome de aposentados e pensionistas, em alguns casos sem que eles soubessem.
Também é apurado se valores obtidos nesses processos foram levantados e retidos sem o devido repasse aos clientes. O Tribunal de Justiça de São Paulo aponta mais de 12 mil ações ajuizadas pelo grupo entre 2022 e 2025.
O nome da operação faz referência à garatéia, um tipo de anzol com três pontas unidas a um único corpo central, usado para aumentar as chances de fisgar o peixe durante a pesca.
Segundo o MP, uma única procuração era aproveitada para propor várias ações em nome do mesmo cliente, multiplicando os processos a partir de uma só autorização.
Advogados são investigados por esquema de fraude em ações em nome de aposentados e pensionistas na região de Ribeirão Preto — Foto: Kaique Castro/EPTV
Por Flávia Santucci, Werlon César, Isabela Leite, g1 Ribeirão e Franca, EPTV e TV Globo
Fonte: @portalg1



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