A escola pública foi trincheira. Neuza passou em Direito na UFBA com caderno emprestado e ônibus contado. Trabalhou como datilógrafa, copeira e estagiária sem remuneração, carregando processo e preconceito no mesmo braço. Diziam que “não tinha perfil” para a magistratura. Ela respondeu com concurso. Tornou-se juíza federal, depois desembargadora no TRF-1, em Brasília. Primeira mulher negra a ocupar a cadeira. Cada sentença que assina leva o carimbo de quem sabe o peso que o Estado tem quando chega atrasado na vida de quem mora em cortiço.
É impossível falar de Neuza sem falar de Brasil. Um país que ainda mede competência pela cor e pelo CEP, mas que, teimosamente, é salvo por filhos de domésticas que viram doutoras. A trajetória dela denuncia: o problema nunca foi falta de capacidade, foi excesso de porta fechada. Quantas Neuzas ficaram pelo caminho porque a escola não tinha merenda, porque a universidade não tinha cota, porque o tribunal não tinha espelho? A crítica que ela carrega no nome é simples e contundente: mérito só existe quando a largada é justa.
Hoje, Neuza Alves é cotada para o Supremo Tribunal Federal. Seria a primeira ministra negra da história da Corte. O simbolismo é gigante, mas reduzir sua trajetória a símbolo é novo tipo de violência. Ela não chega ao STF para “representar”. Chega porque tem 30 anos de jurisdição, teses aprovadas, decisões que pacificaram conflitos fundiários, ambientais e de direitos sociais. Chega porque conhece a lei e conhece a dor de quem mais precisa dela. Num Supremo que decide sobre cotas, quilombos, encarceramento e trabalho doméstico, ter uma ex-moradora de cortiço na cadeira não é reparação: é qualificação.
Isso emociona porque é raro, mas indigna porque não deveria ser. O Brasil ainda se surpreende quando uma mulher negra cruza a Praça dos Três Poderes sem ser para limpar o chão. A ascensão de Neuza não apaga a estatística, escancara-a. Para cada desembargadora que vence, milhares seguem sem defesa, sem creche, sem defensoria. Por isso sua possível nomeação não é ponto de chegada. É ponto de partida para cobrar que o caminho que ela abriu na marra vire avenida.
E aqui nasce o otimismo. Se uma menina que dividia beliche com a chuva em Salvador pode julgar a República em Brasília, então o jogo não está fechado. Neuza Alves prova que o Brasil dá certo quando não desperdiça seus cérebros por racismo e pobreza. Que sua toga, se vier, sirva de lembrete: o topo da Justiça também é lugar de filha de doméstica. E que, depois dela, nenhuma outra precise ser exceção para ser chamada de Excelência.
Ariane Ferreira
Fonte: @revistaraca

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