Advogada diz que acionou botão do pânico 50 vezes contra ex violento e foi atendida uma única vez

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Advogada diz que acionou botão do pânico 50 vezes contra ex violento e foi atendida uma única vez

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Via @marieclairebr | A advogada Carolina Câmara registrou 13 boletins de ocorrência, acionou o botão do pânico cerca de 50 vezes e afirma estar sendo perseguida após denunciar o ex-companheiro, G.B.B., por agressão. Mesmo amparada pela Lei Maria da Penha, diz que a sensação de insegurança persiste. “Desde setembro de 2025 tenho a medida protetiva, mas ela nunca foi cumprida”, afirma, em entrevista a Marie Claire.

Segundo Carolina, o ex-companheiro continuou tentando contato e descumprindo restrições, como o distanciamento mínimo de 300 metros, a proibição de comunicação por redes sociais e o recolhimento noturno -- quando deveria permanecer em casa entre 20h e 9h, inclusive aos fins de semana e feriados.

Por conta das violações, a Justiça determinou, em novembro, o uso de tornozeleira eletrônica e a concessão do botão do pânico a Carolina. Ela, que é de Goiânia, relata ter enfrentado dificuldades já no acesso ao equipamento. “No estado de Goiás só existem 600 aparelhos. Tive que entrar em uma fila. Mesmo após a determinação judicial, esperei quase dez dias.”

Apesar da medida, Carolina diz que o ex-namorado continuava circulando nas proximidades de sua casa e do trabalho, inclusive durante a madrugada, o que acionava repetidamente o alarme. “Esse botão, que deveria ser um instrumento de segurança para entender quando ele está perto, virou de terror.”

O início do relacionamento

O namoro começou em fevereiro de 2023, após os dois se conhecerem por um aplicativo de relacionamento. Carolina descreve o início como “aparentemente comum”, mas afirma que o comportamento abusivo foi se revelando com o tempo.

“Eu não acredito que um relacionamento com violência doméstica já comece com agressões fortemente impostas. Como um típico relacionamento abusivo, ele isola primeiro, são reações e atitudes sutis”, diz.

Segundo ela, o isolamento aconteceu de forma gradual: amigos deixaram de frequentar sua casa, e a presença da família, antes constante, passou a ser vista com desconfiança pelo então companheiro.

“Minha família é muito pequena, bem aconchegante e próxima. Meus amigos são poucos, mas sempre estiveram na minha vida, com acesso livre à minha casa. Percebi que as coisas estavam distorcidas quando as pessoas começaram a evitar esse contato. Os alertas vinham de fora”, relata.

A primeira agressão física ocorreu na casa do pai de Carolina. Ela conta que o namorado mexeu em seu celular sem permissão, removeu um ex das redes sociais e, ao ser questionado, reagiu com violência. “Ele me beliscou e começou a me xingar. Me chamava de puta, de vagabunda. Antes de viver isso, eu via reportagens e pensava: ‘Por que essa mulher não sai, não denuncia?’. Mas, naquele momento, eu simplesmente travei”, afirma.

No dia seguinte, ao ser confrontado, Braga justificou a agressão dizendo que ela teria “provocado” a situação. “Depois disso, vinham os tratamentos de silêncio, por tempo indeterminado, que hoje vejo como tentativas de controle e de me fazer sentir culpada pelo que ele tinha feito”, completa.

O fim do namoro após a agressão

Em setembro de 2025, Carolina relata ter sofrido uma série de agressões. Segundo ela, foi enforcada, agredida com socos e arrastada pelo imóvel. “Em certo ponto, ele pisou em cima do meu tórax. Fiquei quase dez dias indo ao hospital diariamente, tanto para tomar medicação quanto para fazer exames. Meu relacionamento começou com um encontro e terminou no banco do IML”, afirma.

Ela lembra que não houve conversa final. “Naquele momento, o relacionamento acabou.” De acordo com Carolina, vizinhos acionaram a polícia após ouvirem seus gritos. “Quando cheguei à delegacia, já havia seis registros de ocorrência de moradores relatando violência e pedidos de socorro.”

O agressor foi preso em flagrante naquela manhã, mas acabou liberado no mesmo dia. Às 14h, após passar por audiência de custódia, estava solto.

O botão que virou instrumento de terror

Depois do episódio, a goiana ingressou com uma ação contra o ex por lesão corporal. Em novembro, obteve a decisão judicial para uso do botão do pânico, após as novas tentativas de contato.

Em teoria, o sistema deveria funcionar de forma integrada: ao detectar a aproximação do agressor, monitorado por tornozeleira eletrônica, o aparelho vibra, emite alerta sonoro e, ao ser pressionado por dez segundos, aciona a central da Polícia Penal, que deveria enviar uma viatura imediatamente.

Na prática, não funcionou como o previsto, diz Carolina. A advogada contabiliza cerca de 50 acionamentos, com apenas um atendimento policial. “Se o botão fosse cumprido à risca, traria segurança. Como nunca foi, virou um instrumento de terror”, afirma.

Segundo ela, as aproximações passaram a ocorrer com frequência durante a madrugada. Ao acionar o dispositivo, afirma que recebia como resposta das autoridades que o agressor seria “advertido”. Os 13 boletins de ocorrência por descumprimento foram arquivados sob a justificativa de que ele estaria “em trânsito” nas proximidades. “Que trânsito é esse à meia-noite e meia na minha rua?”, questiona.

Na última ocorrência registrada, em janeiro, afirma ter ouvido de uma delegada que o ex “ia acabar te matando” e que a família deveria “pedir indenização depois”. Em outro episódio, ao denunciar a violência psicológica, foi orientada a “apresentar datas e horários exatos”. Sem conseguir, acabou retirando a queixa.

“Dizem que preciso de um fato concreto. Tenho laudos do IML, atestados e registros de contato. Mesmo assim, pedem mais. O que é concreto? Meu corpo chegando aqui?”

Pânico geral

A situação também afetou a família de Carolina. A mãe vive em alerta constante, enquanto os avós, de 82 anos, passaram a dormir em sua casa. “Vivemos em pânico geral. As pessoas também se afastaram. Quem quer estar perto de alguém com esse risco?”

Em dezembro, o Ministério Público pediu a prisão preventiva do agressor, alegando risco à vítima, mas o pedido foi negado. O caso ainda aguarda análise de recurso.

Diante do cenário, Carolina decidiu pedir a retirada da medida protetiva. “Fui entendendo que a falha não era só do judiciário. Nenhum descumprimento era levado a sério, o que descredibiliza a minha palavra. Eu estava sendo punida no lugar do agressor, vivendo um cárcere dentro de casa. No momento em que ele quisesse me matar, não seria um papel que impediria.”

A retirada exigiu uma carta detalhada, na qual ela relatou falhas no atendimento policial e judicial. O documento foi enviado aos advogados na última quarta-feira (8), mas nenhuma atualização foi divulgada até o momento.

Ela afirma que decidiu tornar a situação pública para evidenciar falhas no atendimento às vítimas de violência doméstica. “Muitas mulheres desistem da medida protetiva ou nem denunciam. Quando acontece com a gente, pensamos: ‘Será que foi só comigo?’. Mas não é. É uma falha sistemática”.

Atualmente existem três processos em andamento: o da medida protetiva, o de lesão corporal, que foi recebido pelo Ministério Público e deve ter audiência em maio deste ano, e um processo cível de indenização.

Mesmo com a repercussão, o medo permanece. “Continua o clima de pânico. Acho que só estarei segura se um dia ele for preso”, conclui.

O que diz a defesa

Em nota a Marie Claire, a defesa de G.B.B. diz que “transcorreram aproximadamente sete meses, sem que tenha havido qualquer episódio concreto de contato voluntário, aproximação indevida ou conduta praticada por Gabriel que evidenciasse violação real das restrições impostas”, acrescentando que esse cenário “contrasta com a narrativa pública de risco permanente que agora se busca propagar”.

Também afirma que todas as alegações de descumprimento de medidas protetivas foram analisadas pelas autoridades competentes ao longo do período. Segundo a nota, “ao final, o que se verificou foi a ausência de justa causa para persecução criminal”, e que a autoridade policial especializada teria apontado que os registros apresentados estavam “amparados em conjecturas, interpretações subjetivas e atos juridicamente neutros”.

Os advogados Thiago Peres e Andressa Borba declaram que o processo referente à lesão corporal “ainda se encontra em fase de instrução, com audiência já designada para maio de 2026, razão pela qual os fatos devem ser tratados com responsabilidade, cautela e absoluto respeito ao devido processo legal”.

Por Bruna Liu, redação Marie Claire — São Paulo
Fonte: @marieclairebr

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